*Por Rafael Duarte
Introdução
No dinâmico e inovador mundo de desenvolvimento de jogos eletrônicos, a criatividade e a tecnologia precisam ser trabalhadas de modo coeso e organizado, para que ideias muito interessantes saiam da cabeça de seus idealizadores e se transformem em algo concreto.
Para que isso aconteça, uma ferramenta extremamente importante ganha espaço: o Game Design Document, chamado, de modo simplificado no mercado de games, como GDD. A publicação de hoje terá como propósito abordar com vocês diversos tópicos relacionados ao GDD, desde o seu conceito, até boas práticas para a sua adoção nos dias de hoje.
Como um escritório especializado em assessoria empresarial para estúdios de games, vivenciamos diariamente, por meio do acompanhamento de nossos clientes, como a utilização dessa ferramenta pode ser o diferencial para um planejamento saudável e adequado do seu jogo, podendo exercer papel determinante entre o sucesso e o fracasso de um projeto.
O que é um GDD?
Naturalmente, antes de entrarmos em maiores detalhes sobre a utilização do GDD no processo de desenvolvimento, cabe realizar a sua conceituação. O Game Design Document (GDD) nada mais é do que o documento central de um projeto de desenvolvimento de jogos, cujo objetivo é compilar e organizar todas as informações essenciais para transformar a ideia inicial em um produto jogável.
Mais do que um simples compilado de ideias soltas, ele serve como um guia detalhado para orientar toda a equipe de seu Estúdio da íntegra das etapas de design e desenvolvimento, incluindo a temática e o gênero do jogo, as mecânicas, os elementos narrativos, a escolha das plataformas, os tipos de inimigos, os níveis (levels), e os detalhes de interface, som, e arte.
Com base nisso, o GDD comporta diferentes figuras de linguagem para ser definido; isto é, ele pode ser entendido como: a) Manual de montagem do game; b) Mapa do processo de desenvolvimento; ou, ainda, como c) Planta de execução e direção do processo criativo.
a) “Manual de Montagem” do game:
Um GDD bem elaborado funciona como um verdadeiro “manual de montagem do jogo”.1 Isso, pois será capaz de descrever cada peça e processo necessário para dar vida ao projeto e orientar toda a equipe de desenvolvimento. Desde a concepção de mecânicas de gameplay e interações até o design visual dos personagens e ambientes, o GDD ajuda a estruturar e organizar todas as fases do desenvolvimento.
Com esse documento em mãos, torna-se possível materializar um norte claro sobre o que precisará ser feito, além de como será feito, dando origem a um fluxo de trabalho claro e eficiente para todos aqueles que estiverem, de alguma forma, envolvidos no processo de desenvolvimento.
b) Mapa do processo de desenvolvimento:
O GDD é também entendido como um mapa do processo de desenvolvimento, uma vez que é apto a orientar cada desenvolvedor, artista, designer, animador (entre outros) acerca de que caminho seguir. Um dos maiores problemas ao longo de um processo criativo é não se ter uma padronização de interpretação sobre o que se está, efetivamente, criando.
Dessa forma, o GDD torna-se uma peça crucial para alinhar todos os envolvidos, garantindo que o projeto mantenha consistência e unidade, tanto para jogos mais simples, quanto para jogos mais complexos (uma vez que o critério distintivo estará mais atrelado ao nível de detalhamento do GDD, como será visto a seguir). Mantendo todos na mesma batida, o GDD consegue ser uma ferramenta de comunicação essencial para facilitar a troca de ideias e atualizações, deixando todos sintonizados e reduzindo a margem para interpretações equivocadas.
c) A “Planta” de Execução e Direção:
O GDD é frequentemente descrito como uma espécie de “planta” (blueprint)2 do jogo, pois é o documento que serve para definir o escopo do projeto, seus prazos, bem como a visão geral do produto. Oferece, ainda, uma referência clara sobre o que o projeto é, e – talvez ainda mais importante – o que ele não é.
Ao fazer essa separação entre o conteúdo abarcado e todas as atividades que não fazem sentido para o projeto, tarefas são priorizadas e se consegue evitar um resultado extremamente nocivo no mercado, denominado “feature creep”, que nada mais é do que uma espécie de expansão descontrolada de funcionalidades, muitas vezes inúteis para o projeto concebido. Se você tiver um GDD bem definido à mão, toda a equipe conseguirá alinhar a concepção do jogo e a execução prática, tendo este documento como norte para unificar e comunicar a visão, de maneira acessível e objetiva.
Sintetizando: o GDD não é apenas uma lista de funcionalidades, mas, em verdade, um documento vivo e estruturado, essencial para o sucesso e a coesão de qualquer projeto de desenvolvimento de games.
Utilidades do GDD
Agora que temos a definição de GDD, o questionamento natural que surge é: por que eu deveria ter um GDD para desenvolver o meu jogo? Antes de tudo, por mais que o processo de criação do jogo seja “mão na massa” (ou “hands-on”, como preferir), de nada adianta ter muita dedicação para concretizar a sua ideia se a própria ideia não estiver clara para todos os envolvidos. Tenha em mente, em todos os casos, que o GDD será o instrumento para transformar ideias abstratas em um projeto concreto e compartilhável.
Numa etapa em que os conceitos relevantes ao projeto ainda estão dispersos, o GDD funciona como uma espécie de “bússola”, responsável por guiar o desenvolvedor ao longo do processo criativo, ajudando a organizar e comunicar as ideias de maneira clara e objetiva.
De modo sintético, pode-se oferecer 3 (três) principais utilidades para o GDD: a) Uniformizar o entendimento sobre o projeto; b) Servir de ferramenta comunicacional; e c) Padronizar conceitos e dar consistência visual ao que será criado.
Uniformização de entendimento sobre o projeto:
Um GDD bem estruturado facilita o alinhamento de toda a equipe, garantindo que todos entendam o projeto da mesma forma. Isso é crucial para a harmonia no desenvolvimento, pois cada membro da equipe – do programador ao designer – precisa compartilhar uma visão unificada do jogo. Com um documento claro, cada profissional consegue se inspirar corretamente em sua função e antever o resultado final, trabalhando de forma coesa e integrada.
Ferramenta comunicacional:
O GDD não é um fim em si mesmo e, se o objetivo fosse simplificar de modo objetivo a sua utilidade nuclear num verbo, este seria “comunicar”. Isso faz com que, extenso ou simplificado, o propósito central do GDD sempre será o de servir como uma ferramenta eficaz de comunicação.
O GDD deve ser compreensível para que qualquer integrante, novo ou já envolvido, consiga rapidamente entender o projeto e contribuir de maneira eficaz. Segundo André Alves, fundador da Little Leds, o GDD deve ser tão claro e abrangente que, em um cenário extremo (ex.: morte do idealizador do projeto), qualquer membro da equipe poderia dar continuidade ao projeto sem dificuldades.3
Padronização de conceitos e de projeção visual do resultado futuro:
Se a comunicação dentro do projeto não é padronizada, cada um pode interpretar e descrever o jogo de maneira diferente, gerando confusão e desalinhamento, com pessoas executando as suas atribuições de modo conflitante e que, quando vierem a ser sobrepostas, serão muito provavelmente descartadas; o resultado será, naturalmente, doses cavalares de retrabalho!
Para contornar esse tipo de problema, o GDD pode oferecer uma referência central e uniformizada para conceitos nucleares ao desenvolvimento. Fabiano Oliveira, da Fábrica de Jogos4, usa como exemplo a figura de uma “maçã”. Se ouvirmos apenas a palavra “maçã”, a mesma equipe poderá ter múltiplas visões diferentes do que uma maçã é: poderá ser vermelha, verde, fatiada ou inteira. Isso previne inconsistências visuais e conceituais e mantém todos os envolvidos na mesma “batida”.
Portanto, o GDD é mais que uma mera lista de ideias; ele é a base da comunicação, planejamento e alinhamento de expectativas que garantem a coesão e a clareza para o desenvolvimento de qualquer projeto de jogo.
E o que vem daqui pra frente?
Agora que você já está totalmente por dentro das informações gerais sobre o GDD, pode ser que o seu interesse seja efetivamente colocar a mão na massa e construir um GDD. Nesse caso, temos outra publicação específica sobre aspectos práticos da criação desse documento tão importante para o segmento de games, com orientações reais sobre como torná-lo o mais útil para tirar o projeto da sua cabeça.
Para tanto, basta clicar nesse link aqui, para ter acesso a um guia prático sobre como construir o seu GDD, com orientações objetivas e diretas sobre como usar as melhores práticas construídas pelo mercado de games ao longo das últimas décadas e, principalmente, o que está sendo adotado atualmente.
Caso você tenha interesse em mais conteúdos sobre estúdios de games, propriedade intelectual e direito contratual, como abordamos na postagem de hoje, permaneça conectado no site e nas redes sociais da Caputo Duarte Advogados, nos quais sempre entregamos conteúdo atualizado e detalhado sobre startups, games, inovação e empreendedorismo.
Leia mais:
Investimento em Estúdios de Games – Tipos de Investimento e principais cláusulas contratuais.
*Rafael Duarte – Advogado, sócio do escritório Caputo Duarte Advogados, com atuação especializada em Startups, Studios de Games e Empresas de Base Tecnológica. Pós-graduado em Direito Digital e Proteção de Dados; Pós-graduado em Direito Público pela Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul; Pós-graduado em Direito Negocial Imobiliário pela Escola Brasileira de Direito; Pós-Graduado em Direito Imobiliário pela Faculdade Legale/SP; Pós-graduado em Direito de Família e Sucessões pela Faculdade Legale/SP; Mentor em programas de empreendedorismo e desenvolvimento de negócios inovadores, tais como InovAtiva Brasil, START (SEBRAE), entre outros; Diretor da Associação Gaúcha de Direito Imobiliário Empresarial (AGADIE) e Membro da Comissão de Direito Imobiliário da OAB/RS.
Referências
1“O Game Design Document será seu guia (ou o guia da sua equipe) na hora de criar o jogo. Ele vai funcionar como um “Manual de Montagem” do seu jogo, contendo as principais informações sobre a proposta, funcionalidades e mecânicas do seu game.” (Como (e quando) criar um GDD: formatos, dicas e exemplos práticos. Produção de Jogos, 2022. Disponível em: https://producaodejogos.com/gdd/#:~:text=O%20GDD%20. Acesso em: 10 out. 2024)
2 “A game design document (GDD) is a software design document that serves as a blueprint from which your game is to be built. It helps you define the scope of your game and sets the general direction for the project, keeping the entire team on the same page.” (Game Design Document Template and Examples. Nuclino. Disponível em: https://www.nuclino.com/articles/game-design-document-template. Acesso em: 10 out. 2024.
3“A ideia pode ser ótima, mas você precisa estruturar de forma prática, que dê pra trabalhar. Você precisa estruturar de forma que outra pessoa pegue aquele documento e também fazer aquilo. Se você morrer amanhã, outro designer ou outra equipe vai poder pegar o GDD e vai poder trabalhar no jogo e fazer aquilo acontecer.” (Como (e quando) criar um GDD: formatos, dicas e exemplos práticos. Produção de Jogos, 2022. Disponível em: https://producaodejogos.com/gdd/#:~:text=O%20GDD%20. Acesso em: 10 out. 2024).
4“Quer ver um teste. Imagine uma maçã para mim. Pode ser que todos pensem na mesma maçã estereotipada (vermelha e inteira). Mas pode ser que um pense na maçã verde, outro na maçã da Apple, outro em uma maçã mordida… Então agora pense em algo complexo como um jogo. Se não tiver um mínimo de explicações claras sobre como ele será, vai ser imaginar o jogo de qualquer jeito como o caso das maçãs.” (Oliveira, Fabiano Naspolini de. Game Design Document (GDD) ainda é a Melhor Forma de Planejar seu Jogo? Fábrica de Jogos, 2020. Disponível em: https://www.fabricadejogos.net/posts/game-design-document-gdd-ainda-e-a-melhor-forma-de-planejar-seu-jogo/. Acesso em: 10 out. 2024).