Por Alexandre Caputo *
O hype de US$ 20 bilhões que não é o que parece
No início de 2026, a xAI de Elon Musk fechou uma rodada de US$ 20 bilhões com Nvidia e Qatar Investment Authority. A notícia correu o ecossistema como rastilho de pólvora. Vi founders comemorando nas redes sociais, investidores anjos animados e grupos de WhatsApp de startups efervescentes com a percepção de que ‘o dinheiro voltou’.
Preciso ser direto: essa rodada representa a exceção da exceção, não a regra.
Captações bilionárias para empresas de tecnologia — mesmo com o hype legítimo da inteligência artificial — correspondem ao 1% mais bem-sucedido de todas as propostas analisadas por fundos globais. Estou falando de empresas com fundadores acima da média, com track record extraordinário, tecnologia proprietária defensável, mercado endereçável comprovado e um ecossistema de relacionamentos que levou décadas para ser construído.
A ilusão de que captar investimento é fácil — ou que voltará a ser como em 2020-2021 — pode custar caro para founders brasileiros. E quando digo custar caro, não estou falando apenas de tempo perdido em pitches que não vão a lugar nenhum. Estou falando de decisões estratégicas equivocadas baseadas em premissas falsas sobre disponibilidade de capital.
O ecossistema de venture capital atravessou uma transformação estrutural nos últimos anos. 2026 marca não um retorno ao passado, mas a consolidação de um novo modelo de investimento: mais seletivo, mais exigente e fundamentalmente diferente do ciclo anterior.
A pergunta que todo founder deveria se fazer agora é: você está pronto para esse novo ciclo?
O que realmente mudou desde 2022
A narrativa comum sobre os últimos anos tende a simplificar demais o que aconteceu. Não foi apenas uma ‘correção de mercado’ ou um ‘inverno das startups’. Foi uma reorganização completa das prioridades e da forma como o capital de risco é alocado — e essa reorganização é permanente.
Os números contam parte da história. Segundo a ABVCAP, o volume de investimentos em startups brasileiras caiu mais de 60% entre 2021 e 2023. Globalmente, a PitchBook reportou queda de 53% no total investido em venture capital nos Estados Unidos no mesmo período. Mas o mais relevante não é a contração quantitativa — é a mudança qualitativa que ela revelou.
Durante o boom de 2020-2021, o crescimento acelerado era o principal indicador de sucesso. Queimar caixa para ganhar mercado era aceito como estratégia padrão. Valuations seguiam múltiplos agressivos baseados em projeções otimistas e, frequentemente, irrealistas. A due diligence funcionava mais como protocolo do que como filtro real de decisão.
Essa dinâmica se desfez rapidamente. E quando se desfez, revelou um problema estrutural: boa parte das startups que haviam captado capital naquele ambiente não tinham fundamentos para sobreviver a um ambiente mais exigente. Os gestores passaram a olhar para métricas de eficiência, sustentabilidade real do modelo de negócio e capacidade de geração de caixa. O discurso de ‘hipercrescimento’ deu lugar a conceitos como ‘efficient growth’ e ‘unit economics sustentáveis’.
Muitos investidores entendem que o mercado deixou de recompensar crescimento a qualquer custo e passou a privilegiar crescimento com disciplina financeira. Isso não é retórica — é o novo padrão de avaliação que determina quais startups recebem capital e quais ficam para trás.
O que isso significou na prática para os gestores de fundos de Venture Capital
A mudança de comportamento dos gestores de venture capital foi mais profunda do que simplesmente ‘ser mais criterioso’. Houve uma revisão completa do processo de avaliação em várias frentes.
Primeiro, o tempo de due diligence aumentou drasticamente. Processos que antes duravam dias passaram a durar semanas e até meses. Documentação que antes era solicitada de forma protocolar passou a ser analisada de verdade. Contratos que antes eram validados superficialmente passaram a ser escrutinados por advogados especialistas.
Segundo, o perfil de informação exigido mudou. Além das métricas de crescimento, os fundos passaram a exigir demonstrações de saúde financeira, histórico de eficiência no uso de capital e documentação societária impecável. Startups que antes conseguiam disfarçar fragilidades estruturais atrás de gráficos de crescimento impressionantes passaram a ter dificuldade.
Terceiro — e aqui está o ponto que mais me chama atenção como advogado —, o jurídico passou de check-list para critério eliminatório. Antes, um cap table bagunçado era uma observação na due diligence. Hoje, é motivo para passar para o próximo deal.
O que venture capitals brasileiros dizem sobre 2026
Tenho acompanhado de perto as declarações e análises dos principais gestores ativos no mercado brasileiro. O consenso é claro: a expectativa para 2026 é de recuperação gradual, não de euforia. Quem esperar uma volta ao ambiente de 2021 vai se decepcionar.
Fernando Silva, sócio da Crescera Capital, é direto ao avaliar o momento: a sinalização de cortes na taxa Selic será mais importante que o tamanho dos cortes em si. Para ele, o essencial é a trajetória decrescente dos juros, iniciando um novo ciclo de liquidez. Mas a recuperação plena deve vir apenas no triênio 2027-2029 — 2026 ainda será um ano de transição, marcado por desafios econômicos e instabilidade política.1
Fernando acrescenta uma observação que considero especialmente relevante para fundadores que estão pensando em timing de captação: quem está líquido agora está muito bem posicionado para escolher bons empreendedores com mentalidade adequada ao novo momento de mercado. A tendência é que essa seja uma safra de alto retorno para fundos que têm capital disponível e conseguem separar qualidade de hype.
Renato Valente, managing partner da Iporanga Ventures, mantém otimismo cauteloso. O humor do mercado está se recuperando tanto do lado dos investidores quanto dos fundadores, mas com uma diferença importante: a seletividade permanece alta. A Iporanga, que foca em fintech e financial services em estágio seed e pré-Series A, tem visto dealflow aquecido em setores onde o Brasil apresenta vantagens competitivas e gaps de eficiência claros.2
A Airborne Ventures descreve o ciclo de 2025-2026 como um período de reconstrução para o venture capital brasileiro. O capital segue disponível, mas opera com critérios mais rigorosos, privilegiando empresas com números econômicos sólidos, execução consistente e fundamentos claros. Para a gestora, esse ambiente menos exuberante, porém mais disciplinado, cria condições historicamente favoráveis para formação de boas oportunidades de investimento.
Um consenso entre os investidores: o pano de fundo eleitoral tende a funcionar menos como gatilho imediato de retomada e mais como elemento de redução de incertezas. A expectativa de trajetória de redução de juros funciona como um vento a favor fundamental, tornando o cenário mais positivo tanto para cotistas e investidores institucionais que voltam a alocar em ativos de risco quanto para os gestores VCs que encontram custo de capital e valuations mais favoráveis.
O que esse quadro significa para founders que querem captar agora
Interpretar corretamente esse cenário é determinante para a estratégia de captação. Há duas leituras erradas que vejo com frequência.
A primeira é o pessimismo excessivo: ‘o mercado está fechado, não adianta tentar’. Não é verdade. Capital existe. Fundos estão fazendo deals. O dealflow da maioria dos gestores está aquecido. O que mudou é o filtro, não a disponibilidade.
A segunda é o otimismo ingênuo: ‘o dinheiro voltou, é só ter um bom produto e uma boa história’. Também não é verdade. A volta da liquidez não significa volta dos padrões frouxos de 2021. Fundos que sobreviveram ao ciclo de correção aprenderam lições dolorosas e não vão repeti-las.
A leitura correta é mais nuançada: há capital disponível para startups que demonstrem fundamentos sólidos, execução consistente e estrutura adequada para receber investimento. O critério mudou, mas a oportunidade existe. E para founders que se preparam adequadamente, este pode ser um dos melhores momentos para captar — justamente porque a concorrência de startups estruturalmente fracas diminuiu.
A realidade regional: América Latina em perspectiva
O contexto latino-americano adiciona camadas importantes ao cenário brasileiro — e entendê-las ajuda founders a posicionarem sua narrativa de forma mais estratégica com investidores globais.
Segundo dados do Sling Hub, desde 2021 o Brasil atrai entre 50% e 70% do capital de risco dedicado à região, com o México como coadjuvante principal. Isso significa que quando falamos de América Latina em venture capital, estamos essencialmente falando de Brasil e México — os demais mercados, com exceção de casos pontuais, têm representatividade marginal.3
De acordo com o CB Insights, a região atraiu cerca de US$ 4 bilhões em 2024, aumento em relação aos US$ 3,3 bilhões de 2023. Brasil e México lideraram, captando aproximadamente 50% e 30% do total, respectivamente. Para 2025-2026, a expectativa é de manutenção nessa faixa, com rodadas maiores à medida que empresas amadurecem.4
O cenário geopolítico global também favorece a América Latina, ainda que de forma indireta. A forte dependência econômica de outras regiões emergentes em relação à China afetou negativamente mercados como o Sudeste Asiático, reduzindo o apetite de investidores para essa geografia. A Rússia continua inviável por conta da guerra. A África permanece pouco representativa no setor de tecnologia. Esse cenário torna a América Latina relativamente mais atrativa para investidores globais buscando mercados emergentes diversificados.
Mas essa atratividade relativa não significa facilidade. Significa que há capital global disponível para startups latinoamericanas que demonstrem fundamentos sólidos, execução consistente e capacidade real de escala. A janela existe — mas é estreita e exige preparo.
O Brasil tem vantagens competitivas reais que precisam ser comunicadas
Há um erro que vejo com frequência em pitches de founders brasileiros para fundos internacionais: subestimar o que o Brasil tem a oferecer como mercado.
O Brasil é o maior mercado da América Latina, com mais de 210 milhões de pessoas, penetração de smartphones acima de 80%, uma das maiores populações bancarizadas da região e um ecossistema de pagamentos digitais que é referência global — o Pix processou mais de R$ 17 trilhões em 2023 e segue crescendo. Isso cria oportunidades estruturais em fintech, saúde digital, agtech, edtech e varejo online que são genuinamente difíceis de replicar em mercados menores.5
Além disso, o Brasil tem um pool de talentos técnicos crescente, com universidades que formam engenheiros e cientistas de dados de qualidade. O custo de desenvolvimento de tecnologia no Brasil, comparado com mercados como Estados Unidos ou Europa, ainda representa vantagem competitiva para startups em estágio inicial.
Founders que sabem articular essas vantagens de forma crível — com dados, não apenas com entusiasmo — têm uma narrativa genuinamente atrativa para investidores globais. O problema é que muitos chegam ao pitch com a narrativa pronta e a empresa despreparada.
Onde a maioria das startups ainda falha
Existe uma narrativa recorrente entre founders que não conseguiram captar nos últimos anos: o mercado estava fechado, o timing estava errado, os investidores estavam muito conservadores. Em muitos casos, isso é parcialmente verdade. Mas em tantos outros, o problema não foi timing — foi preparação estrutural.
Vejo startups tecnicamente sólidas, com produtos interessantes e fundadores competentes, que perdem rodadas por questões estruturais evitáveis. O mais frustrante é que muitas dessas falhas poderiam ter sido resolvidas meses antes, com custo e esforço relativamente baixos. São problemas que não aparecem no dia a dia operacional, mas que explodem durante a due diligence.
Cap table desorganizado. Sócios sem acordo formal, ausência de vesting, participações mal definidas, fundadores que saíram mas ainda constam como acionistas. Investidores interpretam isso como risco futuro de conflito — e, na dúvida, passam para o próximo deal. A questão não é apenas jurídica; é sinal de que decisões fundamentais sobre a empresa foram negligenciadas. Um cap table bagunçado levanta uma pergunta incômoda: se os fundadores não conseguem organizar a própria sociedade, como vão organizar uma empresa em escala?
Propriedade intelectual mal estruturada. Tecnologia desenvolvida por terceiros sem cessão formal de direitos, marcas não registradas ou em conflito, código sem titularidade clara. Para startups de base tecnológica, isso é eliminatório. Não há como investir em uma empresa cujo principal ativo — a tecnologia — não pertence claramente a ela. Já vi rodadas inviabilizadas porque um desenvolvedor que saiu há dois anos nunca assinou o contrato de cessão de direitos sobre um módulo crítico do sistema.
Contratos genéricos ou frágeis. Modelos baixados da internet sem adaptação à realidade do negócio, termos de uso que não protegem a empresa adequadamente, parcerias estratégicas sem cláusulas de proteção mínima. O problema não aparece no dia a dia operacional, mas aparece durante a due diligence quando investidores identificam riscos não mapeados. Um contrato mal feito não é apenas um risco jurídico — é um sinal de que a empresa não tem maturidade para gerir relacionamentos comerciais complexos.
Passivos trabalhistas ocultos. Estruturas que misturam PJ e CLT sem critério claro, prestadores de serviço sem contratos adequados, ausência de documentação sobre jornada e remuneração variável. Isso gera provisões que impactam diretamente o valuation e, em casos extremos, inviabilizam a rodada. A pejotização em si não é problema — mas a pejotização sem documentação adequada é uma bomba-relógio que aparece na due diligence.
Governança inexistente. Decisões importantes tomadas informalmente, ausência de atas, falta de processos mínimos de aprovação para gastos relevantes ou contratações estratégicas. O investidor não quer entrar em uma empresa onde não há previsibilidade sobre como decisões são tomadas e documentadas. Governança não é burocracia — é o que diferencia uma empresa que escala de uma que implode quando o fundador não está presente.
O padrão que emerge é claro: startups que atravessaram o período mais crítico investindo em organização interna saem na frente em 2026. Não porque estão perfeitas, mas porque são auditáveis, previsíveis e demonstram capacidade de escalar com processos mínimos de governança.
Por que governança virou vantagem competitiva
Em 2026, estar juridicamente organizado deixou de ser diferencial e virou requisito básico. A questão agora é: quem consegue transformar essa organização em vantagem competitiva real no processo de captação?
A resposta passa por cinco pilares estruturantes que diferenciam startups preparadas de startups apenas funcionais.
1. Governança societária robusta
Acordo de sócios bem desenhado, com cláusulas de proteção mútua que funcionem na prática, regras claras de entrada e saída que não travem futuras rodadas, não concorrência, cessão da propriedade intelectual, não aliciamento de clientes e colaboradores. Investidores avaliam isso antes mesmo de olhar para métricas de produto. Uma startup que demonstra maturidade na gestão societária sinaliza capacidade de escala institucional.
O acordo de sócios não pode ser um documento genérico. Precisa contemplar cenários realistas: o que acontece se um fundador sai voluntariamente? E se for excluído por justa causa? Como funciona a diluição em novas rodadas? Quais decisões exigem unanimidade e quais podem ser tomadas por maioria? Como são resolvidos impasses? Essas definições evitam conflitos que destroem valor no momento em que a empresa mais precisa de foco — geralmente durante um processo de captação ou quando surge uma oportunidade de M&A.
Um acordo bem estruturado também protege os próprios fundadores entre si. Já vi sociedades destruídas não por problemas externos, mas por ausência de regras claras sobre o que acontece quando a visão dos sócios diverge. Um bom acordo previne esses conflitos ou estabelece mecanismos claros para resolvê-los sem comprometer a empresa.
2. Estrutura trabalhista sustentável
Modelos de contratação compatíveis com a fase da empresa, documentação adequada de jornada e remuneração, processos claros para transição de PJ para CLT conforme a operação amadurece. O objetivo não é eliminar risco — é torná-lo mensurável, gerenciável e transparente para investidores.
Startups em fase inicial frequentemente usam a pejotização para reduzir custos e manter flexibilidade. Isso não é problema, desde que haja documentação clara, contratos adequados e compreensão dos riscos envolvidos. O que mata rodadas é a surpresa: o investidor descobre na due diligence que há 15 prestadores de serviço essenciais sem contrato, ou que a empresa não tem documentação de jornada de trabalho dos últimos 18 meses.
O processo de escala inevitavelmente exige profissionalização das relações trabalhistas. Startups que planejam essa transição — definindo critérios claros para quando e como converter prestadores em CLT — chegam ao processo de captação com muito mais segurança.
3. Contratos comerciais que suportem crescimento
Termos de uso revisados por advogados que entendem tecnologia e o modelo de negócio específico, contratos com clientes que protejam propriedade intelectual e dados, parcerias estratégicas com cláusulas que não travem futuras rodadas ou processos de M&A. A diferença entre um contrato bem feito e um modelo genérico aparece justamente no momento de escalar ou buscar saída.
Contratos comerciais precisam equilibrar flexibilidade operacional com proteção jurídica. Cláusulas muito rígidas podem dificultar parcerias futuras. Cláusulas muito flexíveis podem expor a empresa a riscos desnecessários. O ideal é trabalhar com profissionais que entendam tanto o aspecto jurídico quanto a dinâmica do mercado de tecnologia — não apenas advogados generalistas, mas especialistas que compreendem as especificidades de modelos SaaS, marketplaces, plataformas e outros formatos típicos do ecossistema de startups.
Um ponto frequentemente negligenciado: cláusulas de dados e privacidade. Com a LGPD em plena vigência e cada vez mais fiscalizada, contratos que não tratam adequadamente o tema de coleta, tratamento e compartilhamento de dados são um risco real — tanto jurídico quanto reputacional.
4. Propriedade intelectual blindada
Registro de marca em classes relevantes para o negócio, cessão formal de direitos autorais sobre código e design de todos os desenvolvedores e designers que já passaram pela empresa, contratos de confidencialidade com desenvolvedores e parceiros estratégicos. Startups vivem de ativos intangíveis — e esses ativos precisam estar formalmente protegidos e pertencer claramente à empresa.
Muitas startups só descobrem problemas de propriedade intelectual quando tentam captar ou quando surgem conflitos com ex-colaboradores. Nesse momento, resolver o problema é exponencialmente mais caro e complexo. A prevenção é literal: documentar titularidade desde o primeiro dia, com contratos específicos para cada contribuidor técnico, desde o estagiário que escreveu um módulo até o CTO cofundador.
O registro de marca merece atenção especial. É comum startups operarem por anos com uma marca que, quando vão registrar, descobrem estar em conflito com outra já registrada. Além do custo financeiro e de tempo para resolver o problema, há o risco de ter que mudar o nome do produto ou da empresa — um processo traumático e caro, especialmente quando já há tração e reconhecimento de mercado.
5. Processos de governança operacional
Atas de reuniões importantes devidamente arquivadas, registros de decisões estratégicas com aprovação formal quando necessário, políticas mínimas de compliance e uso de dados compatíveis com a LGPD, processos documentados para aprovação de gastos significativos e contratações seniores. Não se trata de burocracia desnecessária, mas de construir um histórico auditável que facilite due diligence e demonstre maturidade de gestão.
Governança operacional é o que separa empresas que crescem de forma caótica de empresas que crescem de forma sustentável. Investidores querem ver que existe método na operação, que decisões importantes são tomadas de forma estruturada, que há accountability sobre o uso de capital. Empresas que chegam à due diligence com um histórico documental organizado — mesmo que não perfeito — transmitem uma mensagem poderosa: aqui há seriedade na gestão.
Vale mencionar que governança operacional não precisa ser pesada. Para uma startup de 10 pessoas, não faz sentido o mesmo nível de processo de uma empresa de 200. O objetivo é calibrar o nível de formalização ao estágio da empresa, com visão de onde se quer chegar. Uma startup que hoje tem 10 pessoas mas quer ter 100 em dois anos precisa começar a construir os processos agora, para que eles já estejam maduros quando forem realmente necessários.
O papel do jurídico na narrativa de captação
Há uma dimensão do jurídico no processo de captação que raramente é discutida: seu papel na construção da narrativa de confiança com o investidor.
Quando um fundo analisa uma startup, está essencialmente fazendo uma aposta sobre o futuro. E apostas envolvem confiança. A pergunta que o investidor está tentando responder não é apenas ‘essa empresa tem um bom produto?’ — é ‘posso confiar que essa equipe vai gerir meu capital com responsabilidade e integridade?’
A estrutura jurídica da empresa é um dos sinais mais concretos que o investidor tem para avaliar essa confiança. Uma empresa com governança bem estruturada, documentação organizada e contratos adequados comunica: aqui há seriedade, há método, há capacidade de gerir recursos de terceiros.
Por outro lado, uma empresa com cap table bagunçado, propriedade intelectual mal definida e contratos genéricos comunica — mesmo que involuntariamente — que os fundadores não prestam atenção nos detalhes. E se não prestam atenção nos detalhes da própria estrutura, como vão prestar atenção nos detalhes da operação quando o capital estiver na conta?
Nesse sentido, investir em estruturação jurídica não é apenas reduzir risco — é construir a narrativa de confiabilidade que diferencia uma startup no processo de captação.
Due diligence: o que realmente acontece por dentro
Para founders que nunca passaram por um processo de due diligence formal, é útil entender o que realmente acontece. O processo varia por fundo e estágio, mas há padrões comuns.
Na fase inicial, o fundo analisa o material enviado pelo founder — deck, data room básico, demonstrações financeiras. Nessa fase, a maioria dos deals é eliminada. Os critérios são uma combinação de tese de investimento do fundo, tamanho de mercado percebido, qualidade da equipe e alinhamento com o portfólio existente.
Na fase intermediária, para os deals que avançam, começa a due diligence mais substantiva. Aqui entram análise detalhada de financeiros, entrevistas com clientes, análise de métricas de produto e, crescentemente, revisão jurídica preliminar da estrutura da empresa.
Na fase final, para os deals seriamente considerados, o fundo contrata assessores externos — advogados, auditores, especialistas de mercado — para uma due diligence formal. É aqui que os problemas estruturais aparecem. E é aqui que deals são quebrados por questões que o founder considerava secundárias.
A lição prática: preparar o data room com antecedência, com toda a documentação organizada e acessível, não é apenas uma questão de eficiência — é uma forma de demonstrar profissionalismo e de acelerar o processo. Investidores que recebem um data room bem organizado chegam ao processo de negociação com mais confiança e menos ansiedade sobre o que podem encontrar.
A mensagem para 2026: o Venture Capital não está fechado, está exigente
O capital de risco vai voltar a circular com mais força em 2026. Fundos têm dry powder disponível, há apetite genuíno por novas teses, e o ecossistema mostra sinais consistentes de recuperação. Mas a forma como esse capital será alocado mudou permanentemente.
Investidores aprenderam — às vezes da pior forma, com write-offs significativos — que crescimento sem fundamento não gera retorno sustentável. E os fundadores que internalizarem isso primeiro terão uma vantagem competitiva real no mercado de captação.
Não basta mais ter um produto promissor, um pitch convincente ou uma apresentação visualmente impecável. É preciso ter uma empresa estruturada para receber investimento, escalar com segurança, operar com processos mínimos de governança e, eventualmente, gerar saída que remunere adequadamente os investidores.
A boa notícia é que essa barreira, embora real, é completamente superável. Diferente de desafios de product-market fit ou timing de mercado — que dependem de fatores externos em grande medida fora do controle do founder — questões jurídicas e de governança têm soluções conhecidas, custos previsíveis e podem ser resolvidas com antecedência adequada.
A má notícia é que ignorar essas questões não é mais uma opção viável. Em um mercado onde capital é seletivo e alternativas abundam, investidores simplesmente passarão para a próxima oportunidade. E pode não haver uma segunda chance com aquele fundo específico.
O jurídico não garante captação. Mas a ausência dele, cada vez mais, a impede.
Um roteiro prático para founders que querem captar em 2026
Com base no que vejo no dia a dia assessorando startups em processos de captação, desenvolvi um checklist mental que utilizo com founders que querem se preparar. Não é exaustivo — cada empresa tem suas especificidades — mas cobre os pontos críticos.
Três a seis meses antes de iniciar o processo: revisar cap table e formalizar ou atualizar o acordo de sócios; levantar todos os contratos com desenvolvedores e garantir cessão de direitos; fazer levantamento de passivos trabalhistas potenciais; verificar status de registro de marca nas classes relevantes; organizar data room inicial com documentos societários, contratos principais e demonstrações financeiras.
Um a três meses antes: preparar data room completo com documentação organizada e categorizada; resolver pendências identificadas no levantamento anterior; preparar respostas para perguntas frequentes de due diligence; alinhar com o time sobre o processo e garantir disponibilidade para entrevistas com o fundo.
Durante o processo: ser transparente sobre problemas conhecidos — fundos preferem descobrir problemas pelo próprio founder a descobrir durante a due diligence; responder solicitações de documentação com agilidade; manter o time focado na operação enquanto o processo de captação corre em paralelo.
2026 será um ano de oportunidades para quem estiver preparado. E preparação, neste contexto, significa muito mais do que ter um bom produto — significa ter uma empresa pronta para receber, gerir e multiplicar capital de terceiros com responsabilidade, transparência e governança adequada.
O capital está voltando. A janela está se abrindo. A questão é: você tem o que é preciso para aproveitá-la?
Quer saber mais como se preparar para captar investimento?
Confere o Guia: https://caputoduarte.com.br/guia-pratico-como-se-preparar-para-captar-investimento/
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Referências
1https://startups.com.br/negocios/venture-capital/verao-das-startups-nao-vira-em-2026-dizem-investidores/
2https://startups.com.br/negocios/venture-capital/verao-das-startups-nao-vira-em-2026-dizem-investidores/
3https://finsidersbrasil.com.br/estudos-e-relatorios/fintechs-sustentam-interesse-de-investidores-na-america-latina-apesar-da-retracao/
4https://mittechreview.com.br/venture-capital-america-latina-2024/?
5https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44032-no-brasil-88-9-da-populacao-de-10-anos-ou-mais-tinha-celular-em-2024
*Alexandre Caputo – Advogado, sócio do escritório Caputo Advogados; MBA em Venture Capital, Private Equity e Investimento em Startups pela FGV/SP, Pós-graduado em Direito Societário pela Escola Brasileira de Direito; Pós-Graduado em Contratos, Direito Imobiliário e Responsabilidade Civil pela PUCRS; Ex-Vice Presidente da Associação Gaúcha de Startups (AGS); Palestrante em direito, tecnologia e inovação; Mentor em mais de 15 programas de empreendedorismo e desenvolvimento de negócios inovadores tais como Inovativa, ABStartups, InoveNow, entre outros. Atua na área empresarial com ênfase em Startups e Estúdios de Games





