Ana Oliveira Mattos*
Introdução: Direito complexo em um mercado que exige agilidade
Startups nascem e crescem em um ambiente marcado por agilidade, inovação constante e tomadas de decisão rápidas. Os fundadores lidam diariamente com desenvolvimento de produto, captação de investimentos, validação de mercado, contratações e parcerias estratégicas. Nesse cenário, a expectativa natural é que todas as áreas do negócio acompanhem esse ritmo, inclusive o Direito.
Na prática, porém, o que muitas startups encontram é justamente o oposto. Contratos extensos, linguagem excessivamente técnica, documentos jurídicos difíceis de compreender e comunicações pouco claras acabam se tornando barreiras, e não ferramentas de apoio ao crescimento do negócio. Em vez de orientar, esses documentos frequentemente geram dúvidas, insegurança e retrabalho.
Esse descompasso entre a dinâmica do mercado de inovação e o modelo tradicional de comunicação jurídica não é apenas uma questão de estilo. Documentos mal compreendidos aumentam o risco de conflitos entre sócios, ruídos na relação com clientes e parceiros, dificuldades na negociação com investidores e, em muitos casos, a judicialização de situações que poderiam ter sido evitadas desde o início através de documentos com mais clareza.
É nesse contexto que surge o Legal Design. Mais do que uma tendência ou um recurso estético, trata-se de uma abordagem que propõe repensar a forma como o Direito é estruturado e comunicado, colocando o usuário no centro das decisões jurídicas. Ao buscar tornar o Direito mais claro, funcional e alinhado à realidade dos negócios, o Legal Design se apresenta como uma ferramenta estratégica para empresas que precisam crescer com segurança jurídica, sem abrir mão da agilidade.
O que é Legal Design, afinal?
De forma simples, Legal Design é uma abordagem que aplica princípios do design à prática jurídica, com o objetivo de tornar documentos, serviços e comunicações legais mais claros, funcionais e compreensíveis para quem realmente vai utilizá-los. Em vez de pensar o Direito apenas do ponto de vista técnico ou formal, o Legal Design parte de uma pergunta essencial: quem é o usuário desse conteúdo jurídico e como ele vai interagir com essa informação?
Isso significa mudar o foco tradicional do Direito, que historicamente foi estruturado “de dentro para dentro”, ou seja, pensado principalmente para outros advogados, juízes e operadores do sistema. O Legal Design propõe uma inversão dessa lógica, colocando no centro do processo o destinatário final do documento jurídico — no caso das startups, fundadores, equipes internas, clientes, parceiros e investidores.
Na prática, essa abordagem envolve repensar não apenas a linguagem utilizada, mas também a organização das informações, a forma de apresentação dos conteúdos e a experiência de leitura como um todo. Um contrato, por exemplo, deixa de ser apenas um conjunto de cláusulas longas e técnicas e passa a funcionar também como um instrumento de orientação, capaz de explicar direitos, obrigações, riscos e consequências (como multas) de forma mais intuitiva.
É importante destacar que Legal Design não se confunde com “simplificar demais” ou retirar o rigor jurídico dos documentos. O conteúdo técnico continua existindo, assim como a preocupação com validade, segurança jurídica e conformidade legal. A diferença está na forma como esse conteúdo é estruturado e comunicado. A clareza deixa de ser vista como inimiga da segurança jurídica e passa a ser compreendida como um dos seus pilares.
Por isso, o Legal Design deve ser entendido como uma forma de pensar o Direito, e não apenas como uma técnica isolada. Ele envolve método, planejamento e decisões conscientes sobre como apresentar informações jurídicas de maneira mais acessível, sem perder precisão. Para startups, essa mudança de perspectiva faz toda a diferença, pois transforma o Direito em um aliado estratégico do negócio, e não em um obstáculo difícil de decifrar.
Qual a diferença entre Legal Design e Visual Law?
Um dos equívocos mais comuns quando se fala em Legal Design é confundi-lo com Visual Law. Embora os dois conceitos estejam relacionados, eles não são sinônimos e cumprem papéis distintos dentro da prática jurídica.
O Legal Design é a abordagem mais ampla. Ele envolve uma forma de pensar o Direito a partir da experiência do usuário, considerando fatores como linguagem, organização da informação, clareza, usabilidade e funcionalidade dos documentos e serviços jurídicos. Trata-se de um método que começa antes mesmo da redação do documento, passando pela compreensão do problema jurídico, do contexto do negócio e das necessidades de quem vai utilizar aquela informação.
Já o Visual Law pode ser compreendido como uma das ferramentas possíveis dentro dessa abordagem. Ele diz respeito, especificamente, ao uso de elementos visuais — como ícones, fluxogramas, tabelas, destaques gráficos, cores e esquemas — para facilitar a compreensão de conteúdos jurídicos. Em outras palavras, o Visual Law atua principalmente na forma como a informação é apresentada visualmente às partes contratuais.
Isso significa que é possível aplicar Legal Design sem necessariamente utilizar elementos visuais complexos, assim como é possível utilizar recursos visuais de maneira inadequada, sem qualquer método ou critério, o que não caracteriza Legal Design. O simples fato de “deixar o contrato mais bonito” ou incluir gráficos e cores sem uma lógica clara não torna um documento juridicamente mais eficiente — e, em alguns casos, pode até gerar confusão.
Para startups, essa distinção é fundamental. O uso de elementos visuais faz sentido quando contribui para a compreensão do conteúdo, orienta decisões e reduz ambiguidades. Em contratos recorrentes, termos de uso ou políticas de privacidade, por exemplo, fluxos explicativos e organização visual podem ajudar usuários e equipes internas a entender melhor obrigações e limites. Por outro lado, o uso excessivo ou mal planejado de recursos visuais pode comprometer a leitura, a interpretação e até a segurança jurídica do documento.
Por isso, Visual Law não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas como um recurso estratégico, que precisa estar alinhado a uma análise jurídica sólida e a uma compreensão clara do contexto do negócio. Quando bem aplicado, ele potencializa os benefícios do Legal Design; quando usado de forma superficial, corre o risco de se tornar apenas um elemento decorativo, sem impacto real.
Por que startups deveriam se importar com Legal Design?
Desde os primeiros passos, startups lidam com decisões jurídicas relevantes. Contratos com sócios, acordos com fornecedores, termos de uso, políticas de privacidade, contratações, parcerias estratégicas e rodadas de investimento fazem parte da rotina, mesmo quando o time ainda é pequeno e o foco principal está no produto e no crescimento.
O problema é que, em muitos casos, esses documentos são tratados apenas como uma formalidade necessária para “seguir em frente”, sem que haja uma compreensão real do seu conteúdo e das consequências jurídicas envolvidas. Contratos extensos e técnicos acabam sendo assinados sem leitura aprofundada, políticas são copiadas de outros negócios e decisões importantes são tomadas com base em interpretações incompletas ou equivocadas.
Esse cenário cria riscos relevantes. Documentos mal compreendidos tendem a gerar conflitos futuros, seja entre sócios, com clientes, com prestadores de serviço ou com parceiros comerciais. Além disso, a falta de clareza dificulta a gestão interna do negócio, pois equipes não sabem exatamente quais são seus limites, obrigações e responsabilidades. Em um ambiente de crescimento acelerado, isso pode resultar em insegurança jurídica, retrabalho e custos que poderiam ter sido evitados.
É justamente nesse ponto que o Legal Design se mostra relevante para startups. Ao tornar os documentos jurídicos mais claros, organizados e orientados ao usuário, essa abordagem contribui para decisões mais conscientes, relações contratuais mais transparentes e maior previsibilidade jurídica. Em vez de ser um obstáculo, o Direito passa a funcionar como um instrumento de apoio à estratégia do negócio.
Além disso, startups que adotam uma comunicação jurídica mais clara demonstram maior maturidade organizacional. Investidores, parceiros e clientes tendem a confiar mais em empresas que apresentam documentos bem estruturados, compreensíveis e alinhados à realidade do negócio. O Legal Design, nesse sentido, não é apenas uma questão de forma, mas um elemento que impacta diretamente a governança, a credibilidade e a sustentabilidade da empresa no longo prazo.
Legal Design na prática: exemplos comuns no dia a dia das startups
Na rotina das startups, o Legal Design se manifesta principalmente na forma como documentos jurídicos são estruturados e comunicados. Não se trata de criar materiais complexos ou sofisticados, mas de tornar informações jurídicas essenciais mais claras, organizadas e fáceis de usar no contexto real do negócio.
Um dos exemplos mais comuns está nos contratos de prestação de serviços e nos modelos SaaS. Cláusulas sobre escopo, responsabilidades, formas de pagamento, prazos, penalidades e hipóteses de extinção contratual costumam ser fontes frequentes de dúvidas e conflitos. Quando essas informações são apresentadas de maneira desorganizada ou excessivamente técnica, aumentam as chances de interpretações equivocadas. A aplicação do Legal Design permite reorganizar esses pontos críticos, destacar o que realmente importa para a tomada de decisão e facilitar a compreensão dos riscos envolvidos.
Outro campo em que essa abordagem se mostra especialmente relevante é nos termos de uso e políticas de privacidade. Esses documentos costumam ser longos, pouco atrativos e raramente lidos pelos usuários, embora sejam juridicamente essenciais. Ao repensar a linguagem, a hierarquia das informações e a forma de apresentação, o Legal Design contribui para que direitos, deveres e limites do serviço sejam mais facilmente compreendidos, reduzindo ruídos na relação com o usuário e fortalecendo a transparência.
Acordos entre sócios também se beneficiam dessa lógica. Questões como participação societária, regras de saída, distribuição de lucros e tomada de decisões estratégicas costumam gerar conflitos quando não estão claramente definidas. Documentos mais claros e bem estruturados ajudam a alinhar expectativas desde o início, evitando desgastes pessoais e disputas que podem comprometer o crescimento da empresa.
Além disso, o Legal Design pode ser aplicado na comunicação jurídica com parceiros, fornecedores e até mesmo equipes internas. Informações bem organizadas e escritas de forma acessível facilitam o cumprimento de obrigações contratuais, reduzem erros operacionais e contribuem para uma gestão mais eficiente. Em todos esses casos, o objetivo não é simplificar excessivamente o conteúdo jurídico, mas torná-lo funcional e adequado à realidade de quem precisa utilizá-lo no dia a dia.
Legal Design significa abrir mão da segurança jurídica?
Uma das principais preocupações quando se fala em Legal Design é a ideia de que tornar documentos mais claros e acessíveis poderia comprometer a segurança jurídica. Esse receio é comum, especialmente em ambientes empresariais que lidam com riscos regulatórios, contratos complexos e responsabilidades relevantes. No entanto, essa associação não se sustenta na prática.
A segurança jurídica não está relacionada à complexidade da linguagem ou ao tamanho dos documentos, mas à clareza das regras estabelecidas, à precisão técnica do conteúdo e à possibilidade de correta interpretação pelas partes envolvidas. Um contrato que não é compreendido dificilmente oferece proteção real, pois aumenta o risco de descumprimentos involuntários, disputas interpretativas e conflitos futuros.
O Legal Design não propõe a eliminação do rigor técnico nem a substituição de conceitos jurídicos por termos vagos ou imprecisos. Ao contrário, ele busca preservar a qualidade jurídica do conteúdo, ao mesmo tempo em que reorganiza informações, melhora a linguagem e facilita a compreensão dos pontos mais relevantes. Trata-se de tornar explícito aquilo que muitas vezes fica oculto em textos longos e pouco acessíveis.
Nesse contexto, o papel do advogado é fundamental. A aplicação responsável do Legal Design exige análise jurídica sólida, compreensão do modelo de negócio e avaliação dos riscos envolvidos. Elementos visuais, linguagem clara e organização da informação devem ser utilizados de forma estratégica, sempre alinhados às normas legais e às particularidades de cada situação.
Legal Design como ferramenta de maturidade jurídica da startup
À medida que a startup cresce, as decisões jurídicas deixam de ser pontuais e passam a fazer parte da estrutura do negócio. O que antes era resolvido de forma informal começa a exigir processos mais claros, responsabilidades bem definidas e maior alinhamento entre sócios, equipes, parceiros e investidores. Nesse momento, a maturidade jurídica se torna um fator decisivo para a sustentabilidade da empresa.
O Legal Design contribui diretamente para esse amadurecimento ao transformar documentos jurídicos em instrumentos efetivos de gestão e orientação. Contratos claros, bem organizados e adaptados à realidade do negócio facilitam a tomada de decisões, reduzem a dependência excessiva de interpretações informais e ajudam a criar uma cultura interna mais consciente sobre riscos e responsabilidades.
Além disso, startups que comunicam melhor suas regras tendem a apresentar maior previsibilidade, um fator especialmente valorizado em negociações com investidores. Documentos confusos, genéricos ou mal estruturados costumam gerar questionamentos, atrasar diligências e aumentar a percepção de risco. Já uma estrutura jurídica clara, coerente e alinhada ao modelo de negócio transmite profissionalismo, organização e seriedade.
O Legal Design também favorece a escalabilidade. À medida que a empresa cresce, entra em novos mercados ou amplia sua base de usuários, a clareza jurídica se torna ainda mais relevante. Termos de uso, políticas internas, contratos padrão e comunicações jurídicas bem estruturadas reduzem erros, evitam conflitos repetitivos e permitem que o negócio cresça sem perder controle sobre suas obrigações legais.
Nesse sentido, adotar o Legal Design não é apenas uma escolha estética ou pontual, mas uma decisão estratégica. Trata-se de enxergar o Direito como parte da estrutura do negócio, capaz de acompanhar o crescimento da startup e apoiar sua evolução de forma segura, eficiente e alinhada aos objetivos de longo prazo.
Conclusão: Direito mais claro, negócios mais sustentáveis
Em um ambiente de inovação, crescimento acelerado e decisões constantes, o Direito não pode ser um elemento distante ou incompreensível dentro das startups. Documentos jurídicos fazem parte do cotidiano do negócio e influenciam diretamente relações com sócios, clientes, parceiros e investidores. Quando esses documentos não são claros, os riscos se acumulam silenciosamente.
O Legal Design surge justamente como uma resposta a esse desafio, ao propor uma forma mais estratégica e funcional de pensar o Direito. Ao priorizar clareza, organização da informação e foco no usuário, essa abordagem transforma contratos e comunicações jurídicas em instrumentos de orientação, prevenção de conflitos e fortalecimento da governança empresarial.
Mais do que uma tendência, o Legal Design representa uma mudança de mentalidade. Startups que adotam essa lógica demonstram maior maturidade jurídica, reduzem incertezas e constroem relações mais transparentes e sustentáveis. Em um mercado cada vez mais competitivo e regulado, tornar o Direito mais acessível não significa abrir mão de segurança, mas sim utilizá-la de forma mais eficiente.
Se a sua startup já evoluiu, mas seus contratos, termos e documentos jurídicos continuam os mesmos de quando o negócio começou, talvez seja o momento de repensar essa estrutura. Uma assessoria jurídica alinhada à realidade do seu modelo de negócio e às boas práticas de Legal Design pode ajudar a reduzir riscos, evitar conflitos e apoiar o crescimento de forma mais segura e estratégica.
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*Ana Oliveira Mattos – Bacharel em Direito no Escritório Caputo Duarte Advogados. Bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Membro do grupo de pesquisa “Observatório de Direito e Tecnologia”, da UFF. Estágio no Ministério Público Federal (PRRJ).
Referências
HAGAN, Margaret. Law by Design. Stanford, CA: Stanford Legal Design Lab, s.d. Disponível em: https://lawbydesign.co/. Acesso em: out. 2025.
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MATTOS, Ana Oliveira. O impacto do Legal Design na democratização do acesso à justiça. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – Universidade Federal Fluminense, Volta Redonda, 2025.





