Deep Tech Summit 2026 – Os Principais Insights que Trouxemos de São Paulo

Sumário

*Por Rafael Duarte

 

Introdução

Nos dias 11 e 12 de agosto de 2026, a Caputo Duarte Advogados esteve presente no Deep Tech Summit 2026, realizado no Complexo Inova USP, em São Paulo, qualificado como o maior evento de deep techs da América Latina. Em sua 4ª edição, o evento reuniu mais de 2.500 participantes, mais de 70 palestrantes e mais de 30 fundos de investimento, com representantes de mais de 15 países diferentes entre o público e o palco, discutindo os principais desafios e oportunidades para startups de base científica na região.

A nossa presença no evento contou com um propósito bastante concreto: para um escritório que assessora startups e empresas de base tecnológica, estar próximo do que está sendo discutido nos bastidores da inovação não é apenas atualização acadêmica, mas efetivo insumo direto para a qualidade do trabalho jurídico que entregamos. Diante disso, o propósito do artigo de hoje é compartilhar com a nossa base de clientes, parceiros e seguidores alguns dos principais insights extraídos das palestras que acompanhamos, com uma leitura sob a ótica jurídica e estratégica que pode ser útil para quem constrói uma deep tech no ecossistema da América Latina.

 

A origem e o propósito do Deep Tech Summit e a sua conexão com temas que já discutimos em postagens anteriores

Antes de entrarmos nos insights de conteúdo propriamente ditos, vale dedicar um tópico à origem do próprio evento, informação que ajuda a entender por que ele se tornou, em poucos anos, uma referência tão relevante para quem acompanha o ecossistema de inovação latino-americano.

O Deep Tech Summit é uma realização da Emerge Brasil, consultoria que exerce um papel claro como parceira end-to-end em P&D e inovação, atuando desde a definição de estratégias de pesquisa e desenvolvimento para empresas, governos e centros de pesquisa até a estruturação de projetos e a captação de recursos. Além do Summit, a Emerge mantém a Converge, uma plataforma de matchmaking com uma base proprietária de mais de 1.300 deeptechs latino-americanas mapeadas, dados que evidenciam a escala do trabalho de curadoria por trás do evento.

O Summit nasceu em 2023, reunindo pouco mais de 450 pessoas, observando-se um crescimento consistente e relevante a cada edição: 1.500 participantes em 2024, 2.000 em 2025 (com 93 de NPS geral, um índice de satisfação bastante expressivo) e superando a barreira de 2.500 participantes agora em 2026, com presença confirmada de representantes de 17 países entre Europa, América do Norte e América Latina. A própria organização resume essa trajetória como a evolução “do palco regional à plataforma latino-americana” e, agora, “do palco regional ao hub global”. Trata-se de uma progressão que, claramente, dialoga com um dos principais desafios que discutimos no painel sobre o “inverno das biotechs” (item 2, abaixo): a necessidade de as deeptechs da região deixarem de mirar apenas o mercado doméstico.

Quanto ao propósito, o tema oficial da edição de 2026 – “Latam Deep Techs for Global Challenges” – é bastante revelador: o evento se propõe a conectar as inovações de fronteira produzidas na América Latina aos grandes desafios globais de clima, saúde, alimentação e energia, reunindo, num mesmo ambiente, startups, investidores, corporações, pesquisadores e representantes de governo. Essa multiplicidade de públicos é, aliás, um dos grandes diferenciais do Summit: a audiência foi composta por startups e empresas, assim como representantes de centros de pesquisa, instituições públicas e fundos de investimento, público extremamente qualificado, portanto. Logo, a grande qualidade das conversas que tivemos o prazer de acompanhar não é algo nada surpreendente.

Essa conexão entre ciência, capital e política pública, aliás, é exatamente o pano de fundo do nosso artigo sobre o panorama nacional, regional e global das deep techs, publicado poucos dias antes do Summit. Naquela publicação, discutimos detalhadamente o que efetivamente caracteriza uma deep tech – empresas lastreadas em hard science, com ciclos de maturação mais longos e forte dependência de propriedade intelectual como diferencial competitivo -, oportunidade em que trouxemos a definição conceitual do próprio Lucas Delgado, Sócio Diretor da Emerge Brasil. Delgado foi um dos protagonistas da cerimônia de abertura do Summit 2026 e também responsável pelo lançamento, durante o próprio evento, do Deep Tech Radar LATAM 2026 – atualização do mapeamento setorial que, em edições anteriores, já havia identificado 875 deeptechs apenas no Brasil (dado que também exploramos naquele artigo, com base no Relatório Deep Techs Brasil 2024 da própria Emerge).

Essa continuidade não é mera coincidência editorial: ela reflete o próprio ritmo de amadurecimento do setor, explicitando o aumento do protagonismo de empreendimentos latino-americanos em inovações de vanguarda. Recomendamos, inclusive, a leitura do artigo anterior a quem ainda não tem clareza sobre os fundamentos que diferenciam uma deeptech de uma startup convencional, como pano de fundo para os insights mais táticos que trazemos a seguir.

 

O Inverno da Biotechs: por que métricas de soft techs não servem para deep techs

Um dos painéis mais provocativos que acompanhamos discutiu o que os palestrantes chamaram de “o inverno das biotechs”: o período recente de retração de capital para ciências da vida, sentido com ainda mais força pelas startups latino-americanas do setor.

Um dos pontos centrais do debate foi a crítica ao uso de métricas típicas de soft techs para avaliar deep techs. Enquanto uma “startup tradicional” (soft tech) pode validar tração em poucos meses e crescer com curva exponencial e baixo CAPEX, uma deeptech – especialmente amparada em inovações biotecnológicas – segue uma lógica de maturação completamente diferente, com ciclos de P&D mais longos, validação científica antes da validação comercial e necessidade intensiva de capital para atravessar etapas regulatórias. Por conseguinte, a aplicação do mesmo funil de expectativas de um investidor de software a uma empresa de base científica tende a gerar frustração para ambos os lados, por erros basilares de premissas.

Essa reflexão foi ilustrada por uma analogia trazida por um dos palestrantes que consideramos muito precisa: a deep tech como uma caravana no deserto. Diferentemente de outros modelos de negócio, que podem se adaptar e pivotar rapidamente conforme encontram obstáculos no caminho, uma deep tech precisa estocar recursos suficientes antes de iniciar a travessia, porque não há “lojas de conveniência” no meio do deserto regulatório e científico. Isso reforça, na nossa leitura, a importância de um planejamento societário e financeiro que preveja rodadas de captação estruturadas para sustentar longos períodos sem receita recorrente relevante, não se restringindo a apenas o próximo marco de produto. 

Outro ponto de destaque foi a constatação da falta de fundos especializados em deep tech na América Latina, quando comparado ao ecossistema dos Estados Unidos (com forte concentração em Boston/Massachusetts) e da Europa. No Brasil, foram mencionados como referências a SP Ventures e o ecossistema ligado ao Hospital Israelita Albert Einstein, mas os palestrantes foram enfáticos ao apontar que se trata de players muito específicos – SP Ventures promove investimentos em deep techs do setor agro e alimentação; ao passo que investimentos oriundos do Albert Einstein restringem-se a soluções de saúde. Portanto, a sua atuação isolada não conseguirá mudar o cenário como um todo; é preciso reconhecer que a indústria de capital de risco especializado em ciência ainda é pequena e conservadora no cenário latino-americano.

Diante desse cenário, o movimento natural tem sido buscar investidores fora do Brasil. O problema é que essa busca externa tende a colocar a deep tech latino-americana em desvantagem: tecnologicamente avançada, mas precificada como barata para os padrões americanos e europeus, algo bastante conhecido no mercado como o “desconto latino-americano”. A conclusão mais dura do painel, e que vale registrar: se o objetivo é realmente vencer a corrida global, muitas vezes será necessário correr essa corrida nos Estados Unidos e vencer lá, disputando com os players estrangeiros; não será suficiente apenas replicar o sucesso doméstico esperando reconhecimento internacional automático.

Um dado trazido por outro dos palestrantes reforça a urgência desse tipo de estratégia e a oportunidade que nascerá para inovações biotecnológicas: estima-se que entre 20% e 25% da receita atualmente gerada pela indústria farmacêutica global deixará de ser capturada pelas grandes empresas por volta de 2028, em razão da queda de patentes relevantes (o chamado patent cliff). Isso representará, naturalmente, uma janela de oportunidade concreta para deep techs de biotecnologia que estejam preparadas para negociar licenciamento, parcerias ou aquisição com esses players.

 

Higiene de Cap Table: o que fazer antes que sua próxima rodada seja travada

Um segundo painel de grande relevância prática tratou de um tema que vemos recorrentemente na nossa prática assessorando startups: a imprescindível higiene do cap table; isto é, a necessária (re)organização da estrutura de sócios e da distribuição de participações societárias de uma startup ao longo do tempo.

O ponto de partida da discussão foi uma reflexão sobre o custo de oportunidade no Brasil, que é particularmente delicado em razão da baixa atratividade doméstica para investimentos de risco. Na prática, isso significa que o investidor costuma chegar à mesa de negociação com poder de barganha superior ao da startup, simplesmente porque há poucas alternativas de captação disponíveis. A analogia utilizada no painel foi bastante didática: um apartamento teoricamente avaliado em R$ 1 milhão que recebe uma única proposta de R$ 200 mil. Se o proprietário precisa vender, o apartamento, na prática, vale R$ 200 mil – não R$ 1 milhão. O mesmo raciocínio se aplica à startup que precisa captar: pouco importa se ela defende – inclusive de modo tecnicamente sólido – que seu valuation é mais alto; ela precisará se adaptar ao apetite de risco dos investidores disponíveis.

Somado a isso, é preciso considerar o impacto do diferencial de juros. O custo de oportunidade no Brasil é severamente impactado pela nossa taxa básica (SELIC), que, historicamente, impõe um prêmio de risco elevado para investimentos em venture capital. Esse cenário contrasta significativamente com a dinâmica dos Estados Unidos, balizada pela Federal Funds Rate (FFR) – taxa definida pelo FOMC, braço do Federal Reserve (Fed). Enquanto a SELIC eleva a barra de retorno exigida pelo investidor doméstico, a FFR reflete um custo de capital global que, muitas vezes, torna o investimento em startups estrangeiras mais competitivo, exacerbando a dificuldade das deep techs brasileiras em competirem por capital em condições de paridade.

Nesse contexto, outra reflexão importante trazida pelos palestrantes é que é extremamente difícil realizar a higiene do cap table sem que exista a pressão de uma nova rodada em curso como motivador. Por mais que, tecnicamente, seja possível reorganizar a estrutura societária a qualquer momento, na prática, é o objetivo de viabilizar a próxima captação que costuma ser o verdadeiro motor para alinhar todos os sócios em torno das mudanças necessárias, sejam elas recompra de participações, renegociação de vesting ou ajuste de cláusulas de governança.

Entre as recomendações práticas discutidas no painel, destacamos:

a) Adoção de vesting para fundadores, com recomendação de uma janela de 4 anos: quem deixa a sociedade antes desse período perde, total ou parcialmente, sua participação societária (introdução de mecanismo de lock-up aos fundadores), desenhando-se, assim, um mecanismo essencial para evitar o chamado “sócio fantasma” no cap table;

b) Cautela com percentuais elevados de equity para advisors, especialmente quando não vinculados a entregas contínuas e mensuráveis – prática que, segundo os palestrantes, tem se tornado cada vez mais mal vista por investidores institucionais em processos de due diligence;

c) Atenção redobrada a exigências de equity por parte de universidades e institutos de ciência e tecnologia (ICTs), especialmente quando esses percentuais estão fora dos parâmetros de mercado – na visão de um dos palestrantes, esse cenário pode se apresentar como obstáculo relevante e recorrente na jornada de captação de deeptechs nascidas de pesquisa acadêmica.

Sobre esse último ponto, vale destacar um exemplo prático mencionado ao longo do painel: diante de uma universidade que exigia uma participação societária fora dos parâmetros usuais de mercado, foi necessário conduzir um verdadeiro trabalho didático de explicação de como funcionam negociações e a jornada venture capital, para tomadores de decisão da própria instituição acadêmica. Embora não seja uma abordagem usual, segundo relatado, essa conversa foi decisiva para alinhar as expectativas das partes e permitir que a operação avançasse.

A conclusão do painel dialoga diretamente com a nossa atuação: a complexidade dessas negociações reforça a necessidade de suporte jurídico especializado ao longo de toda a jornada da startup – e não apenas no momento em que a rodada já está em risco de ser travada por um passivo societário mal estruturado, mas especialmente como providência preventiva.

 

Sebrae para Deep Techs: o maior programa da América Latina

Por fim, destacamos as informações compartilhadas sobre os programas nacionais de apoio a deeptechs conduzidos pelo Sebrae, apontado no evento como o maior programa de criação de deeptechs da América Latina.

Os números apresentados chamam atenção pela escala: mais de 6.000 pesquisadores capacitados e 358 CNPJs criados a partir da iniciativa, com um modelo de execução 100% virtual, no qual os participantes se encontram presencialmente apenas em eventos pontuais. Trata-se de uma política pública relevante para o fundador que ainda está no estágio de transformar uma descoberta científica ou uma pesquisa acadêmica em empresa, a qual, somada a outros instrumentos não dilutivos discutidos no evento (como linhas da FINEP e da EMBRAPII), reforça um movimento importante: o financiamento público não deve ser encarado como algo acessório, mas como parte estruturante da estratégia de capital de uma deeptech em estágio inicial.

 

Conclusão

O Deep Tech Summit 2026 reforçou uma percepção que já fazia parte da nossa prática cotidiana de assessoria a startups de base tecnológica: o desafio da deeptech latino-americana não é de qualidade científica, mas de estruturação de ordens societária, financeira e regulatória. Os insights que agora compartilhamos, desde as discussões sobre o “inverno da biotech” à higiene de cap table, passando pelos programas públicos de apoio, convergem para um mesmo ponto: fundadores de deeptech que se planejam desde cedo, com boa governança societária e suporte jurídico qualificado, possuem mais condições de suportar as adversidades que, certamente, existirão ao longo da sua jornada.

Esse tipo de evento reforça o compromisso da Caputo Duarte Advogados em estar sempre próxima do ecossistema de inovação que assessoramos, não apenas para acompanharmos tendências, mas para trazermos, na prática, essas discussões para dentro dos contratos, das estruturas societárias e das negociações que conduzimos com nossos clientes.

Caso você tenha interesse em mais conteúdos sobre deep techs, estruturação societária e captação de investimento, como abordamos na postagem de hoje, permaneça conectado no site e nas redes sociais da Caputo Duarte Advogados, nos quais sempre entregamos conteúdo atualizado e detalhado sobre startups – sejam elas soft techs ou deep techs -, inovação e empreendedorismo.

 

 


 

*Rafael Duarte – Advogado, sócio do escritório Caputo Duarte Advogados, com atuação especializada em Startups, Studios de Games e Empresas de Base Tecnológica. Pós-graduando em Direito Digital e Proteção de Dados; Pós-graduado em Direito Público pela Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul; Pós-graduado em Direito Negocial Imobiliário pela Escola Brasileira de Direito; Pós-Graduado em Direito Imobiliário pela Faculdade Legale/SP; Pós-graduado em Direito de Família e Sucessões pela Faculdade Legale/SP; Mentor em programas de empreendedorismo e desenvolvimento de negócios inovadores, tais como InovAtiva Brasil, START (SEBRAE), entre outros; Diretor da Associação Gaúcha de Direito Imobiliário Empresarial (AGADIE) e Membro da Comissão de Direito Imobiliário da OAB/RS.

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